
Existe uma pergunta que quase ninguém faz durante a contratação de uma equipe eleitoral. Quem está construindo a estratégia da campanha?
Nos últimos anos, a profissionalização das redes sociais criou uma distorção curiosa no mercado político. Muitos candidatos passaram a acreditar que contratar alguém para cuidar do Instagram é o mesmo que contratar alguém para pensar a campanha.
Basta observar o que acontece em boa parte das eleições. Perfis bem produzidos, vídeos editados com qualidade, artes bonitas, números expressivos de alcance e engajamento. Mesmo assim, muitos desses candidatos terminam a eleição sem conseguir transformar curtidas em votos.
Um estrategista digital possui uma função extremamente relevante. Ele compreende plataformas, comportamento de audiência, formatos de conteúdo, impulsionamento, métricas, distribuição e desempenho.
O estrategista político precisa analisar algo muito maior. Ele precisa compreender pesquisas, cenário eleitoral, alianças, disputas internas, posicionamento, narrativa, agenda, mobilização, riscos jurídicos, capacidade financeira da campanha e os impactos políticos de cada decisão.
Uma campanha eleitoral não acontece somente dentro do Instagram. Ela acontece nas ruas, nos partidos, nas reuniões, nas entrevistas, nos grupos de WhatsApp, nos veículos de imprensa, nos encontros com lideranças, nas articulações regionais, nas conversas que jamais serão registradas em uma métrica de engajamento.
É justamente por isso que o estrategista político precisa manter diálogo permanente com praticamente todos os núcleos da campanha. Com a coordenação geral para alinhar objetivos, com o jurídico para evitar riscos eleitorais, com a contabilidade para garantir conformidade financeira, com o administrativo para avaliar a viabilidade das ações, com a comunicação para transformar estratégia em mensagem, com as lideranças políticas para compreender movimentos que podem alterar completamente o cenário eleitoral.
Marketing tradicional e marketing político não operam sob a mesma lógica. Uma empresa pode vender um produto sem precisar construir uma articulação política já uma campanha eleitoral não tem esse privilégio.
Eleições envolvem poder, influência, relações partidárias, grupos de interesse, alianças, disputas territoriais e construção de confiança pública e por muitas vezes a melhor decisão política não é a mais popular. Da mesma forma, a publicação com melhor desempenho nas redes sociais pode não produzir qualquer efeito eleitoral relevante.
A política continua impondo suas próprias regras, por isso um bom marqueteiro precisa de um estrategista digital. Hoje isso nenhuma campanha competitiva pode ignorar o ambiente digital, mas também é por isso que um estrategista digital dificilmente conseguirá conduzir sozinho uma campanha inteira.
Quando isso acontece, existe o risco de a campanha ficar presa à lógica das plataformas. Eleições passam a ser analisadas por curtidas, narrativas passam a ser construídas para agradar algoritmos e decisões políticas passam a ser tomadas com base em métricas que não necessariamente representam o eleitor real.
As redes sociais transformaram a forma de fazer campanha, mas ainda não substituíram a política e muito provavelmente nunca irão substituir. Porque no fim das contas, eleições continuam sendo decididas por pessoas e quem esquece disso normalmente descobre essa diferença quando as urnas são abertas.
Sobre o autor
Paulo Maneira é estrategista político, jornalista e especialista em marketing político e eleitoral. Atua há mais de duas décadas em campanhas eleitorais, gestão de imagem pública e comunicação estratégica. Ao longo da carreira participou de dezenas de campanhas em diferentes estados brasileiros, coordenando projetos de comunicação, posicionamento e mobilização política.
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