
A Bahia entrou, de repente, naquele modo raro em que a política sai do automático e volta a ser um organismo vivo, pulsando, disputando espaço, criando tensão, gerando notícia, e obrigando todo mundo a recalcular a rota em tempo real. E o mais curioso é que esse movimento não começou com um grande ato público, nem com uma declaração institucional bombástica. Começou com redes sociais. Começou com um incômodo exposto. Começou com o senador Ângelo Coronel.
Porque é exatamente assim que funciona o efeito borboleta na política, um gesto aparentemente pequeno, uma fala fora do script, uma frase que não deveria ter sido dita, ou que deveria ter ficado restrita a conversas internas, vira um catalisador. E, quando vira, ninguém mais controla.
Até poucos dias atrás, o cenário de 2026 na Bahia parecia encaminhado, quase definido, mesmo com a névoa da disputa nacional ainda cobrindo o horizonte. O grupo governista caminhava com tranquilidade para uma chapa “puro sangue”, com Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues compondo um desenho que, do ponto de vista eleitoral, entregaria algo simples e poderoso, uma narrativa de unidade partidária e coerência para o eleitor que vota em bloco, presidente, governador e senadores na mesma prateleira. Uma escolha sem ruído.
O problema é que política não é só matemática, é também vaidade, força territorial, compromisso, apetite, e sobretudo, espaço. E aí entram os aliados. Porque para essa chapa existir, era preciso combinar com PSD e MDB. E não era uma combinação simples, era um encaixe cirúrgico, já que significaria rifar a reeleição de Ângelo Coronel, senador em mandato pelo PSD, e ainda mexer na vice, tirando Geraldo Júnior, do MDB, para abrir passagem para uma indicação do PSD e manter o partido na mesa.
Só que o PSD não é um coadjuvante qualquer na Bahia. Pelo contrário, o partido cresceu, capilarizou, e saiu das últimas eleições municipais como uma potência de prefeitos, foram 107 municípios conquistados. Isso dá musculatura, estrutura, orçamento político, palanques, e principalmente, influência real. Não é um partido que aceite ser tratado como apêndice.
E tem mais. O PSD, nacionalmente, está sob a lógica do seu comandante maior, Gilberto Kassab, que trabalha com a perspectiva de ter um nome presidencial competitivo, seja Ratinho Júnior, seja Eduardo Leite. Se isso se consolidar, a legenda passa a ter um desafio quase inevitável em estados estratégicos como a Bahia, como manter alinhamento local sem perder protagonismo. E é justamente aí que começa o nó. Porque fica difícil vender para a base estadual que o partido abrirá mão de um senador com mandato, perderá espaço na chapa majoritária, e ainda ficará sem palanque forte no estado.
Quando Coronel vai às redes e demonstra insatisfação, o que parecia um ajuste interno vira um fato político. E quando vira fato político, muda a relação de forças. Muda porque mexe com o psicológico dos aliados, muda porque cria oportunidade para a oposição, muda porque obriga o PT a se posicionar mais cedo do que gostaria, e muda porque escancara um problema que ainda estava, até então, resolvido por conversas de bastidor.
Ao mesmo tempo, o MDB também entrou no modo de confronto. Os Vieira Lima, caciques históricos do partido, bateram firme dizendo que não abrem mão da vaga de vice. E se o MDB faz jogo duro, não é só por orgulho, é por sobrevivência política. A vice é espaço, é poder, é capacidade de negociação, e é o tipo de cadeira que garante a presença do partido no centro da mesa, mesmo quando não tem protagonismo absoluto.
Com PSD querendo espaço, MDB querendo manter a vice, e PT querendo uma chapa coesa, a conta simplesmente não fecha. E quando a conta não fecha, o planejamento vira adiamento. O PT empurrou a decisão para o início de fevereiro, durante um evento nacional, com a presença do presidente Lula. O que já é, por si só, uma admissão indireta de que a Bahia não é só uma decisão estadual. Vai passar pelo Planalto. Vai passar pelo cálculo nacional. Vai passar pelo presidente, porque a Bahia foi decisiva na equação eleitoral recente, e seguirá sendo uma peça central para 2026.
Só que o relógio não para. E o tempo, na política, não perdoa indecisão. Com menos de nove meses para o jogo começar a se desenhar com mais força, resta pouco espaço para improviso. Nesse contexto, o “efeito borboleta” criado pela movimentação pública de Coronel empurra todo mundo para uma solução que seja grande o suficiente para acomodar as forças, e forte o suficiente para evitar rachaduras.
E é aqui que surge, com força, a hipótese mais explosiva do tabuleiro, o retorno de Rui Costa ao centro do jogo. Não como peça simbólica, mas como solução pragmática. Rui tem recall, tem memória de gestão, saiu como o último governador eleito com força, e carrega um legado que, gostem ou não, sustenta parte da narrativa de continuidade do governo Jerônimo. Além disso, Rui é o tipo de nome que tem peso para negociar, conter crise interna e, ao mesmo tempo, criar dificuldade para a oposição.
Mas esse desenho tem um custo alto. Para Rui voltar com protagonismo total, o sacrifício não estaria no PSD nem no MDB. Estaria dentro do próprio PT. Estaria em Jerônimo Rodrigues, o atual governador. E isso muda tudo. Porque não é mais uma disputa sobre quem entra na chapa, passa a ser uma disputa sobre quem fica de pé dentro do grupo.
O que torna esse cenário ainda mais interessante é lembrar que, na Bahia, a oposição também trabalha com cálculo frio. Em 2018, ACM Neto abriu mão de disputar o governo do estado contra Rui Costa justamente porque as pesquisas indicavam uma barreira quase intransponível. Rui, quando é nome central, não é apenas um candidato, ele vira um muro. E se esse muro reaparece, a oposição inteira precisará refazer sua estratégia, seus discursos e seus movimentos. Mas isso, de fato, é papo para outro artigo.
O ponto aqui é outro. É perceber como um movimento pequeno pode gerar ondas grandes. Porque se Ângelo Coronel tivesse escolhido o silêncio, se tivesse aceitado a costura, se tivesse engolido a decisão no privado, talvez a chapa “puro sangue” seguisse sendo tratada como inevitável. Talvez o PSD continuasse acomodado em promessas. Talvez o MDB não se sentisse pressionado a endurecer. Talvez o PT tivesse mais tempo para organizar o tabuleiro com calma.
Mas ele falou. E ao falar, mostrou que não há mais espaço para soluções fáceis. Que ninguém vai aceitar ser rifado sem reagir. Que a política baiana, quando parece definida demais, sempre encontra um jeito de surpreender.
No fim das contas, esse é o efeito borboleta, uma insatisfação pública, num ambiente em que tudo deveria ser interno, cria um efeito em cadeia que força alianças, expõe contradições e faz o poder voltar ao seu estado natural, tensão, disputa e negociação.
E é por isso que a Bahia ficou vibrante de novo. Porque, de repente, 2026 deixou de ser uma linha reta. Virou encruzilhada.