Meio Ambiente Extinção de insetos

Extinção de insetos põe em risco segurança alimentar

40% das espécies de insetos podem desaparecer nas próximas décadas por uso de agrotóxicos, monoculturas e mudanças no clima. O Atlas do Insetos, publicado pela Fundação Heinrich Böll, lança o alerta e mostra alternativas para preservá-los

07/12/2021 19h20
Por: Rebeca Costa Fonte: Fundação Heinrich Böll

Os insetos representam cerca de 90% das espécies de animais em todo o mundo, mas sua sobrevivência está em risco: 40% podem ser extintos nas próximas décadas, comprometendo diversos serviços ambientais como a polinização de espécies vegetais, o controle biológico de pragas agrícolas e a ciclagem de nutrientes, o que acabaria por ameaçar a segurança alimentar da humanidade. O Atlas dos Insetos, lançado pela Fundação Heinrich Böll, contextualiza as causas para o desaparecimento dos insetos e sugere alternativas para reverter a situação, a partir de práticas ecológicas que preservem a biodiversidade na agricultura e políticas públicas que promovam a proteção das espécies. 

Fruto do trabalho de 34 autores, entre cientistas brasileiros e estrangeiros, o Atlas alerta para os agrotóxicos como uma das principais causas de mortalidade entre os insetos. Dependendo do tipo, esses produtos podem causar mortalidade não só nas espécies alvo de sua ação (as chamadas pragas agrícolas), mas também a espécies benéficas como as abelhas, que podem ter seu sentido de orientação comprometido ou mesmo tornarem-se mais susceptíveis ao ataque de patógenos. Ou seja, apesar de vendido como solução, o agrotóxico afeta populações de polinizadores e pode trazer impactos na produção agrícola, já que 76% das plantas utilizadas para prover alimentos no país dependem da polinização feita por animais. Além disso, os chamados defensivos também podem reduzir a quantidade e variedade de insetos que se alimentam de pragas agrícolas e as controlam naturalmente, aumentando ainda mais a necessidade de aplicações de agrotóxicos, em um círculo vicioso.  

Especialistas também alertam para as mudanças climáticas, que prejudicam insetos benéficos como os polinizadores, mas podem tornar abundantes espécies consideradas pragas, e diminuir a tolerância de plantas agrícolas aos seus ataques. No Brasil, estudos relatam que a longevidade e capacidade reprodutiva de um pulgão que ataca forrageiras, Sipha flava, foram significativamente maiores quando os insetos foram mantidos em nível de CO2 alto e constante. Já uma pesquisa da Universidade de Seattle (EUA) calculou que as safras de arroz, milho e trigo diminuirão entre 10 e 25% por grau de aquecimento global como resultado de mudanças nas populações de insetos. Outro estudo da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), citado no Atlas, demonstra que a produção de alimentos como melancias, abóboras, cacau e castanha-do-Pará pode sofrer um declínio de mais de 90% na ausência da polinização por animais.   

“As pesquisas apontam que o modelo convencional de agricultura está fortemente relacionado à acentuada taxa de declínio dos insetos, que vêm perdendo seus habitats devido ao desmatamento, às crescentes monoculturas e ao uso excessivo de agrotóxicos. Contraditoriamente, esse modelo pode nos levar à insegurança alimentar, uma vez que os insetos, pelas funções que desempenham nos ecossistemas, são responsáveis por grande parte da polinização.”, afirma Joana Simoni, coordenadora da área de agricultura da Fundação Heinrich Böll e editora do Atlas. 

 

Um caminho para a preservação dos insetos

Em oposição aos monocultivos e defensivos da agricultura tradicional, os autores do Atlas dos Insetos indicam a agroecologia como solução mais amigável para garantir a biodiversidade e a sobrevivência das espécies. O uso de agroecossistemas diversificados, por exemplo, aumenta o número de espécies e de interações nos cultivos, trazendo estabilidade às comunidades de insetos. No Brasil, há experiências bem-sucedidas em plantações de café intercaladas com árvores de ingá: além de produzir mais frutos, o café cultivado nestas condições é menos afetado pelo bicho-mineiro do cafeeiro.

Mas, além das boas práticas, a proteção dos insetos precisa de políticas públicas. O Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, produzido pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (PBBES) em 2019, apontou a necessidade de uma política nacional de polinizadores ancorada na conservação da biodiversidade. No entanto, na contramão da preservação, o governo brasileiro já liberou 411 pesticidas apenas em 2021.

 

Biodiversidade de insetos no Brasil

Além dos milhões de insetos já catalogados, cientistas estimam que entre 3 e 5 milhões de espécies, sendo 1,5 milhão apenas de besouros, ainda aguardam descoberta em todo o mundo. O Brasil abriga aproximadamente 90 mil espécies catalogadas, quase 9% do total, possuindo a maior diversidade do planeta. No entanto, estimativas de um número real de insetos indicam que a fauna brasileira pode conter entre 500 mil e um milhão de espécies.

O país sofre com níveis alarmantes de doenças causadas por mosquitos, como a Dengue, a Zika e a Chikungunya. Entretanto, culpar apenas o Aedes aegypti é uma análise simplista, já que pesquisas indicam as mudanças climáticas, o desmatamento e a urbanização desordenada como fatores de risco para a proliferação de algumas espécies. O aumento da temperatura também pode desencadear surtos de gafanhotos, por afetar o desenvolvimento, comportamento e reprodução destes insetos. Desde o século XVII, há registros de ataques de gafanhotos no Brasil e a última grande ameaça aconteceu em agosto de 2020, quando nuvens de gafanhotos se deslocaram por Argentina e Paraguai, ameaçando entrar no país.

Apesar disso, engana-se quem pensa que insetos são apenas fontes de crise. A dinâmica de colaboração com algumas espécies têm importância econômica e social. Como exemplo, as abelhas têm papel significativo em regiões de baixa renda brasileiras, já que grande parte dos apicultores são agricultores familiares. Outro destaque entre os insetos colaboradores são as joaninhas, conhecidas pela roupagem vermelha de bolinhas pretas, mas com relevância além da estética: atuam no controle biológico de espécies indesejáveis. 

Entre os colaboradores menos conhecidos, mas não menos importantes, temos os besouros chamados de “rola-bostas”. Eles atuam na dispersão de sementes e eliminam a presença de moscas nos pastos ao enterrar as fezes do gado. Cada cabeça de gado produz em média 50kg de fezes por dia. Se não fosse por este besouro, 4 bilhões de toneladas de fezes produzidas pelo rebanho brasileiro por ano ficariam acumuladas nos pastos.

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