
A pesquisa do Instituto Veritá, realizada entre os dias 13 e 19 de março de 2026, com 2.020 eleitores e registrada sob os números TRE-BA 02245/2026 e TSE BR-08385/2026, traz um dado que merece uma leitura mais cuidadosa do que simplesmente observar quem está na frente ou atrás nas intenções de voto. O ponto central está na pergunta espontânea, aquela em que o eleitor precisa lembrar, sem estímulo, em quem votaria.
No cenário para o Senado, 88,6% dos entrevistados afirmaram não saber, não responderam ou optaram por branco ou nulo. Isso significa que apenas 11,4% efetivamente citaram algum nome. Em números absolutos, estamos falando de aproximadamente 230 eleitores que conseguiram indicar um candidato de forma espontânea, enquanto cerca de 1.790 pessoas simplesmente não apresentaram nenhuma preferência.
Para o governo do estado, o cenário, embora um pouco menos extremo, segue na mesma linha. Com 74,7% de não respostas, brancos ou nulos, restam 25,3% de eleitores que mencionaram algum nome. Isso representa aproximadamente 511 pessoas que demonstraram alguma intenção espontânea de voto, contra cerca de 1.509 entrevistados que não souberam ou não quiseram responder.
Esses números ajudam a traduzir, de forma concreta, o que muitas vezes fica abstrato quando apresentado apenas em percentuais. A eleição, neste momento, ainda não está presente na cabeça da maioria do eleitorado. No caso do Senado, menos de um em cada dez eleitores consegue citar um candidato. No governo, apenas um em cada quatro.
É evidente que o contexto da pesquisa precisa ser considerado. O levantamento foi feito em um momento em que as chapas ainda não estavam completamente definidas, o que naturalmente reduz o nível de cristalização do voto. Ainda assim, o volume de eleitores que não apresentam qualquer preferência espontânea é alto o suficiente para indicar algo mais profundo do que apenas desconhecimento.
O que se observa é um eleitor distante do processo. Não se trata apenas de falta de informação, mas de baixo interesse e, em muitos casos, de descrença. O debate eleitoral ainda não entrou no cotidiano da população. Não mobiliza, não gera conversa, não desperta atenção.
Esse cenário impõe um risco estratégico importante para campanhas que tentam antecipar a disputa de forma agressiva. Existe uma tendência, dentro do ambiente político, de querer ocupar espaço o quanto antes, intensificando discursos, posicionamentos e pedidos de voto. Mas, diante desses dados, essa antecipação pode produzir o efeito inverso.
Quando o eleitor ainda não está disposto a ouvir, insistir demais no tema pode gerar rejeição precoce e desgaste. O candidato passa a ser percebido não como uma novidade, mas como mais um elemento de um ambiente político que já sofre resistência. Em vez de construir presença, pode acabar sendo ignorado ou, pior, associado à saturação do debate político.
Os números da espontânea deixam claro que este ainda é um momento de construção, não de confronto. É a fase de organizar narrativa, fortalecer imagem, ampliar conexões e ocupar espaços de forma mais sutil e estratégica. A tentativa de transformar esse período em uma campanha antecipada pode custar caro, porque gasta energia em um eleitor que ainda não decidiu sequer prestar atenção.
Mais do que medir intenção de voto, a pesquisa revela o timing do eleitor. E, neste momento, o tempo da política ainda não é o tempo da população. Quem entender isso terá mais chances de crescer quando a eleição, de fato, começar para valer.